Gelo ou calor? Como escolher e usar cada um

Gelo ou calor? Como escolher e usar cada um

Se você já se machucou e ficou na dúvida — “coloco gelo ou uma bolsa de água quente?” — não está sozinho. Essa é uma das perguntas que mais recebo nos atendimentos.

A resposta curta é: depende do objetivo. Gelo e calor podem aliviar a dor, mas nenhum dos dois substitui o diagnóstico, o movimento adequado nem a reabilitação quando ela é necessária.

O que o gelo e o calor fazem no corpo?

O gelo reduz temporariamente a temperatura e o fluxo sanguíneo na região, além de deixar a condução dos nervos mais lenta. Na prática, seu efeito mais útil é diminuir a dor. Ele também pode ajudar a controlar o inchaço logo após algumas lesões.

O calor aumenta a temperatura e o fluxo sanguíneo local, pode reduzir a sensação de rigidez e deixa os tecidos mais fáceis de movimentar por algum tempo. Por isso, costuma ser confortável em dores musculares e articulações rígidas (Malanga, Yan & Stark, 2015).

Esses efeitos são principalmente temporários. Não significa que o gelo “cura a inflamação” nem que o calor, sozinho, acelera o reparo do tecido.

Dor lombar: o calor costuma ter mais espaço

Quando a lombar “trava” sem pancada ou queda, o raciocínio é diferente daquele usado em uma entorse.

Uma revisão Cochrane encontrou evidência moderada de que o calor superficial pode reduzir um pouco a dor e a incapacidade em pessoas com dor lombar aguda ou subaguda. O benefício foi pequeno e de curta duração. Quando o calor foi combinado com exercício, os resultados foram melhores do que com calor sozinho (French et al., 2006).

Para o gelo na dor lombar, a mesma revisão encontrou poucos estudos e não conseguiu chegar a uma conclusão segura. Isso não prova que o gelo não funcione; significa apenas que faltam dados de boa qualidade.

Uma revisão narrativa mais recente também considera o calor superficial uma opção útil para o controle de sintomas na dor lombar inespecífica leve a moderada (Freiwald et al., 2021).

Na prática: se uma lombar dolorida e rígida melhora com calor, ele pode ser usado como apoio para voltar a se movimentar. Se houve queda, trauma forte, perda de força, alteração de sensibilidade ou outros sintomas fora do habitual, é melhor procurar avaliação.

Antes de pegar a bolsa, uma checagem rápida

Gelo e calor são seguros para a maioria das pessoas, mas exigem cuidado quando há alteração de sensibilidade ou de circulação.

Antes de usar gelo, procure orientação se você tem fenômeno de Raynaud, urticária ao frio ou sensibilidade reduzida na região.

No caso do calor, o cuidado deve ser maior quando há redução da sensibilidade, circulação prejudicada ou dificuldade para perceber temperaturas excessivas. Isso inclui pessoas com diabetes, especialmente quando existe alteração da sensibilidade ou da circulação.

Em qualquer dos dois casos, não aplique sobre ferida aberta ou pele lesionada sem orientação. As instruções completas de aplicação estão no final do artigo.

Quando o gelo pode ajudar

  • Entorses e contusões recentes, principalmente para aliviar a dor
  • Inchaço após uma lesão recente
  • Fases iniciais do pós-operatório, seguindo a orientação da equipe responsável
  • Crises pontuais de dor em que o frio traz conforto

A velha regra de que toda lesão nas primeiras 48 ou 72 horas precisa de gelo é simples, mas não conta toda a história. Uma revisão de 22 ensaios clínicos encontrou alguma evidência a favor do gelo associado ao exercício após entorse de tornozelo e em alguns contextos pós-operatórios, mas os próprios autores consideraram a evidência limitada (Bleakley, McDonough & MacAuley, 2004).

Diante dessas limitações, é mais prudente apresentar o gelo principalmente como um recurso para aliviar a dor — e não como a parte principal do tratamento. A própria revisão sobre mecanismos de calor e frio reconhece que grande parte das recomendações se apoia em experiência empírica, com evidência limitada de ensaios clínicos (Malanga, Yan & Stark, 2015).

Em outro estudo, 89 pessoas com entorse leve ou moderada de tornozelo receberam dois protocolos de gelo. A aplicação intermitente produziu menos dor durante a atividade do que 20 minutos contínuos, mas não houve diferença entre os grupos no inchaço, na função ou na dor em repouso após uma semana (Bleakley et al., 2006).

O protocolo intermitente estudado não foi apenas “10 minutos com e 10 sem”. Ele usou 10 minutos de gelo, 10 minutos sem gelo e mais 10 minutos de gelo, repetidos a cada duas horas durante as primeiras 72 horas. Isso foi testado em entorses de tornozelo leves ou moderadas e não deve ser apresentado como regra universal para qualquer lesão.

O gelo pode atrapalhar a cicatrização?

Esse debate existe, mas ainda não permite afirmar que uma aplicação curta de gelo atrasa a recuperação de uma pessoa.

O modelo PEACE & LOVE propôs evitar o uso automático de anti-inflamatórios e gelo nas primeiras fases, destacando que a inflamação participa da reparação e que a recuperação precisa incluir educação, carga progressiva, exercício e atividade física (Dubois & Esculier, 2020). Esse texto é uma proposta clínica, não um ensaio que tenha demonstrado prejuízo causado pelo gelo em humanos.

Parte da preocupação vem de estudos com animais. Em ratos, por exemplo, o resfriamento após uma contusão muscular alterou etapas da inflamação, da formação de novos vasos e da regeneração muscular (Singh et al., 2017). Estudos assim ajudam a entender mecanismos, mas não permitem concluir diretamente que o mesmo resultado ocorrerá em pessoas.

Uma carta ao editor sugeriu ainda que lesões de maior gravidade poderiam exigir uma abordagem diferente, incluindo crioterapia e compressão para controle de edema. É uma opinião clínica fundamentada, mas sem dados novos de ensaio clínico (Fousekis & Tsepis, 2021).

O resumo mais honesto é: use o gelo, se ele ajudar, por períodos curtos e com proteção da pele. Não dependa dele para cicatrizar e não adie a avaliação nem a retomada segura do movimento.

Quando o calor pode ajudar

  • Tensão e dor muscular persistente
  • Rigidez articular, especialmente ao acordar ou depois de ficar muito tempo parado
  • Antes de exercícios ou alongamentos, quando ele torna o movimento mais confortável
  • Dor lombar inespecífica, inclusive em episódios recentes sem trauma

O calor pode reduzir a dor e aumentar temporariamente a extensibilidade dos tecidos. Isso pode facilitar o movimento, mas não quer dizer que ele “solte” definitivamente o músculo ou trate sozinho a causa da dor (Malanga, Yan & Stark, 2015).

E a dor que aparece depois do treino?

A dor muscular tardia costuma aparecer ou aumentar entre 24 e 72 horas depois de um exercício diferente ou mais intenso.

Uma meta-análise em rede reuniu 59 estudos, com 1.367 participantes, e comparou diferentes formas de frio e calor. A bolsa quente apareceu em primeiro lugar no ranking para alívio da dor nas primeiras 24 e 48 horas, enquanto uma modalidade específica de crioterapia — diferente da bolsa de gelo doméstica — ficou em primeiro lugar depois de 48 horas (Wang et al., 2022).

Isso não significa que todo mundo precise trocar automaticamente o calor pelo gelo após dois dias. O estudo comparou intervenções variadas e a certeza dos resultados não autoriza uma regra tão precisa. Na prática, escolha a opção mais confortável, mantenha movimentos leves e dê tempo para a recuperação.

Vale alternar gelo e calor?

A chamada terapia de contraste alterna frio e calor. A ideia é produzir mudanças sucessivas no fluxo sanguíneo, mas o suposto “efeito bomba” não está bem comprovado.

Uma revisão de escopo recente reuniu sete ensaios clínicos randomizados, com 303 participantes e diferentes condições musculoesqueléticas. Os estudos relataram melhora de dor ou função, mas usaram protocolos e comparações muito diferentes. Por isso, ainda não é possível definir um protocolo ideal nem afirmar que o contraste seja superior ao gelo, ao calor ou a outros tratamentos (Leonardi et al., 2025).

Assim, alternar pode ser agradável para algumas pessoas, mas não é obrigatório nem comprovadamente melhor.

Como aplicar com segurança

  • Proteja a pele: coloque uma toalha fina entre a pele e a bolsa.
  • Use por pouco tempo: em geral, 10 a 20 minutos são suficientes para uma aplicação local.
  • Não durma com a bolsa: o contato prolongado aumenta o risco de lesão da pele.
  • Observe a região: interrompa se surgir dor intensa, ardor, coceira forte, manchas, bolhas ou alteração persistente da cor.
  • Evite temperaturas extremas: a bolsa não precisa estar escaldante nem congelada para funcionar.

Não existe uma frequência universal comprovada para todas as lesões. Se for repetir a aplicação no mesmo dia, deixe a pele voltar à temperatura e à sensibilidade normais antes de usar novamente.

Sobre os cuidados citados mais acima: com o gelo, os principais riscos descritos envolvem urticária ao frio, fenômeno de Raynaud, lesão de nervo e queimadura pelo frio em aplicações prolongadas. Com o calor, o risco maior é queimadura de pele, sobretudo em pessoas com diabetes, esclerose múltipla, circulação prejudicada e lesão medular (Nadler, Weingand & Kruse, 2004).

Erros comuns

  • Colocar gelo diretamente na pele
  • Usar uma bolsa quente demais
  • Achar que quanto mais tempo, melhor
  • Ficar completamente parado esperando o recurso resolver a lesão
  • Usar gelo ou calor para adiar uma avaliação necessária
  • Tratar esses recursos como cura, quando o principal efeito deles é aliviar sintomas

Então, gelo ou calor?

Uma forma simples e mais correta de decidir é esta:

Machucou recentemente e está dolorido ou inchado? O gelo pode aliviar a dor.

Está rígido, tenso ou com dor lombar sem trauma? O calor pode facilitar o movimento e trazer conforto.

É dor muscular depois do treino? Tanto frio quanto calor podem ajudar; escolha o que for mais confortável, sem transformar o resultado de um estudo em uma regra rígida de horário.

O ponto principal é que gelo e calor controlam sintomas. Eles podem ajudar você a se movimentar com mais conforto, mas a recuperação depende do diagnóstico, da gravidade da lesão e da carga adequada para cada fase.

Se a dor for intensa, persistir, piorar, mudar de padrão ou vier acompanhada de perda de força, alteração de sensibilidade, deformidade, incapacidade de apoiar o membro ou sintomas gerais, procure avaliação profissional.


Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui avaliação e acompanhamento por profissional de saúde qualificado.

Felipe Corrado — Fisioterapeuta — CREFITO3-1944048-F

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