Se você mora com um pai, mãe ou avô que “só sabe atender ligação” no celular — ou, no extremo oposto, que já não larga o WhatsApp nem para tomar café — este artigo é para você. Como fisioterapeuta especializado em atendimento domiciliar há mais de uma década, já vi de tudo: desde idosos que descobriram no smartphone uma nova forma de se sentir conectados, até quem desenvolveu uma verdadeira dependência emocional do aparelho depois de ficar viúvo ou sozinho em casa.
A ciência já tem bastante coisa para dizer sobre isso. E a resposta não é um simples “faz bem” ou “faz mal” — depende de como e para quê o celular é usado. Vamos destrinchar os dois lados, e depois ver o que isso significa dentro de casa, na prática.
O celular pode ser um personal trainer para o cérebro
Uma revisão sistemática publicada na Innovation in Aging (Wilson et al., 2022) rastreou quase 12 mil registros sobre o uso cotidiano de smartphones e tablets como apoio cognitivo em idosos, com e sem comprometimento cognitivo. O conjunto de estudos analisados trouxe indícios de que esse uso pode ajudar a manter funções como memória e organização do dia a dia — inclusive em pessoas com lesão cerebral adquirida ou demência, especialmente quando já havia familiaridade prévia com o aparelho.
Do lado emocional, uma pesquisa com 5.244 idosos chineses publicada na Frontiers in Aging Neuroscience (Ji, Chen & Ding, 2023) mostrou algo interessante: o uso do smartphone parece reduzir sintomas depressivos de forma indireta, ao facilitar a participação social ativa — ligar em vídeo para os netos, entrar em grupos de família no WhatsApp, se manter informado. Quanto mais o aparelho vira ponte para relações reais, melhor o efeito no humor. O próprio estudo faz um alerta importante: esse benefício depende do tipo de uso — participação ativa (política, voluntária, social) ajudou; lazer passivo prolongado teve efeito oposto, funcionando como freio nesse benefício.
Na prática clínica, os pacientes que aprendem a usar videochamada para falar com filhos que moram longe, ou que entram em grupos de igreja e de bairro pelo celular, costumam relatar menos sensação de isolamento — e isolamento social, sabemos, é fator de risco tanto para depressão quanto para declínio cognitivo. É a mesma mecânica do estudo chinês, só que acontecendo na sala da casa brasileira.
Quando a “ponte” vira “muro”
Aqui mora o outro lado da moeda. Um estudo publicado na JMIR Aging em 2026 (Chen, Song & Huang, 2026), com 2.585 idosos de 87 comunidades em cinco distritos de Guangzhou (China), trouxe um achado que ganhou repercussão internacional: os próprios autores descreveram o smartphone como um aparelho que ora funciona como ponte para a família e a comunidade, ora vira uma espécie de muro que afasta. Usando aprendizado de máquina para identificar os principais preditores de depressão, a participação social limitada apareceu como o fator mais forte, seguida de perto pelo uso compulsivo do próprio celular — definido como um uso excessivo que atrapalha o funcionamento do dia a dia.
E o sono? Também entra na conta
Uma pesquisa com 459 idosos chineses (Tian & Wang, 2023, publicada na Behavioral Sciences) encontrou associação entre uso excessivo do celular e pior qualidade do sono, com depressão e solidão funcionando como elos dessa relação. Ou seja: o celular usado à noite, sozinho, na cama, tende a piorar tanto o humor quanto o descanso — o que, na prática clínica, também aumenta o risco de queda no dia seguinte por causa do cansaço e da menor atenção.
Se você percebe que o idoso costuma dormir com o celular do lado da cama e já reparou que ele anda mais sonolento ou instável durante o dia, esse é exatamente o mecanismo em ação.
A dificuldade de uso do celular não é falta de capacidade — é a interface mal pensada
Muitos idosos simplesmente não conseguem aproveitar os recursos do aparelho porque ele não foi pensado para eles. Um estudo brasileiro publicado na Production (Anjos & Gontijo, 2015), que investigou a relação de idosos com o telefone celular através de questionário de satisfação, arranjo de cartas e teste de compreensão de ícones, mostrou que ícones pequenos, terminologia confusa e menus complexos transformam tarefas simples — como mandar uma mensagem — em fonte de frustração.
Embora seja um estudo de 2015, o retrato ainda é bem atual: uma parte relevante dos aplicativos e sites brasileiros continua sendo desenhada pensando no usuário jovem, sem considerar mudanças naturais da visão, audição, cognição e coordenação motora que vêm com a idade.
Não é só uma preocupação brasileira — é global, com sotaques diferentes
Nos Estados Unidos, a Pew Research Center mostra que a posse de smartphones entre pessoas de 65 anos ou mais saltou de 61% em 2021 para cerca de 76% em 2024 — o maior salto entre todas as faixas etárias. O debate por lá gira menos em torno de efeitos psicológicos e mais sobre acesso e habilidade digital: não basta ter o aparelho, é preciso saber usar bem.
Na Europa, os estudos são mais fragmentados por país: a Itália investe em cursos de letramento digital com idosos ensinando idosos — o projeto ACTIVE-IT (Pizzul et al., 2024), que treinou 32 participantes de 65 anos ou mais em um curso de dez semanas voltado a e-mail, serviços públicos digitais e compras online. Já um estudo com 535 idosos eslovenos (Pucer, Žvanut & Vrhovec, 2025) trouxe um ângulo diferente: para boa parte dos idosos europeus pesquisados, o que mais pesa contra adotar o smartphone não é dificuldade técnica, e sim o medo de golpe e fraude digital.
Isso, aliás, é ainda mais familiar por aqui: quantos casos de golpe via WhatsApp contra idosos você já viu no noticiário este ano? É o mesmo medo europeu, só que com sotaque brasileiro.
Faça esse diagnóstico rápido na sua casa
Antes de seguir para as soluções, vale parar um segundo e olhar para a rotina do seu idoso. Responda mentalmente (ou, melhor ainda, observe nos próximos dias):
- Ele costuma ficar com a tela brilhando no rosto, sozinho, de madrugada? Se sim, o sono provavelmente já está sendo afetado — e o risco de queda sobe junto, tanto durante a noite (ele acorda mais vezes, inclusive para ir ao banheiro, já mais desperto e menos atento) quanto no dia seguinte, por causa do cansaço acumulado.
- Ele usa o celular mais para ver a vida dos outros (rolar fotos, status, feed) ou para participar dela (ligar, mandar áudio, marcar encontro)? Uso passivo demais é o padrão associado a mais isolamento e sintomas depressivos.
- Ele já recebeu ou quase caiu em alguma mensagem suspeita, PIX falso ou ligação de “parente em apuros”? Se sim, o medo de errar pode estar fazendo ele evitar o aparelho por completo — inclusive as funções que fariam bem.
- Ele costuma reclamar que “quebrou” o aparelho ou que “os botões mudaram de lugar”? Isso quase sempre é sinal de interface hostil, não de falta de capacidade de aprender.
Se você respondeu “sim” a alguma dessas perguntas, não é motivo de alarme — é só um mapa de por onde começar.
Mudando o comportamento, não só a interface
Aqui vai uma coisa importante que costuma passar batido: só ajustar fonte grande e ícone simples não resolve um padrão de uso compulsivo ou solitário. Isso melhora a acessibilidade, mas não muda o hábito. Para isso, algumas mudanças de rotina fazem muito mais diferença do que qualquer configuração de tela:
- Celular fora do quarto. Baseado no que os próprios estudos citados acima mostram sobre sono e uso noturno, a ação mais eficaz costuma ser simples: o celular dorme na sala, longe da cama. Se o idoso acordar de madrugada, o gatilho visual (tela brilhando ali do lado) não estará mais tão à mão — e esse pequeno esforço extra de levantar já costuma ser suficiente para interromper o uso compulsivo noturno.
- Trocar consumo passivo por interação ativa. Se você notar que ele fica olhando fotos antigas ou status alheios sozinho, proponha algo concreto: “vamos ligar em vídeo para o tio Fulano agora?”. A diferença entre rolar o feed e fazer uma chamada é, literalmente, a diferença entre o celular funcionar como muro ou como ponte, segundo os próprios estudos citados.
- Criar uma rotina social combinada com o uso do aparelho, como um horário fixo na semana para videochamada com os netos — isso dá previsibilidade e reduz a tendência de usar o celular como “tapa-buraco” emocional em qualquer hora vaga do dia.
Deixando o celular “do jeito certo” para o seu idoso
Com o comportamento encaminhado, aí sim vale a pena capricho na configuração — a grande sacada, segundo os próprios estudos de usabilidade, não é comprar o aparelho mais caro, mas sim configurar bem o que ele já tem.
No Android (Samsung, Motorola, Xiaomi)
- Modo Fácil / Modo Simples: em aparelhos Samsung, fica em Configurações > Tela > Modo Fácil. Ele aumenta ícones e fontes e deixa a tela inicial só com o essencial (telefone, mensagens, câmera, galeria).
- Tamanho da fonte e dos ícones: Configurações > Tela > Tamanho da fonte e Tamanho da exibição.
- Alto contraste: ajuda muito quem tem catarata ou visão cansada.
- TalkBack (leitor de tela): em Configurações > Acessibilidade, para quem tem baixa visão mais severa.
No iPhone
- Texto Maior e Negrito: Ajustes > Tela e Brilho > Tamanho do Texto, e também em Ajustes > Acessibilidade > Tela e Tamanho do Texto.
- Zoom, para ampliar partes da tela: Ajustes > Acessibilidade > Zoom.
- VoiceOver (leitor de tela): Ajustes > Acessibilidade > VoiceOver.
- A Siri pode ser configurada para atender comandos de voz simples, como ligar para um contato ou mandar mensagem por voz.
Uma dica de ouro que aprendi na prática: organize a tela inicial só com os 4 ou 5 aplicativos que a pessoa realmente usa (telefone, WhatsApp, câmera, e talvez um app de banco), e tire o resto do caminho. Menos escolha na tela = menos ansiedade e mais autonomia.
Então, o celular é vilão ou aliado?
Nenhum dos dois, isoladamente. E qualquer discurso de “celular faz mal” ou “celular faz bem”, sem contexto, simplifica demais uma relação que é, na verdade, multifatorial.
A conclusão prática — e aqui falo tanto como fisioterapeuta quanto como filho e neto — é que o problema quase nunca é o celular em si, e sim como e para quê ele é usado, e se a casa está organizada para que ele funcione como ponte e não como muro. Isso significa três frentes trabalhando juntas: hábito (onde o celular dorme, quando ele é usado), comportamento (uso ativo versus passivo) e interface (fonte, ícones, modo fácil). Nenhuma das três sozinha resolve — mas as três combinadas costumam transformar completamente a relação do seu idoso com o aparelho.
Prefere assistir? Veja o resumo em vídeo
Se você prefere ouvir a ler, gravamos um minipodcast com os principais pontos deste artigo.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui avaliação e acompanhamento com profissional de saúde qualificado.
Referências científicas:
ANJOS, T. P.; GONTIJO, L. A. Recomendações de usabilidade e acessibilidade para interface de telefone celular visando o público idoso. Production, v. 25, n. 4, p. 791-811, 2015.
CHEN, S.; SONG, Y.; HUANG, C. C. Smartphone Addiction, Use Preferences, and Depression Among Older Adults in the Digital Context: Machine Learning Analysis of Survey Data. JMIR Aging, v. 9, e84703, 2026.
JI, R.; CHEN, W.; DING, M. The contribution of the smartphone use to reducing depressive symptoms of Chinese older adults: The mediating effect of social participation. Frontiers in Aging Neuroscience, v. 15, 1132871, 2023.
PEW RESEARCH CENTER. Mobile Fact Sheet. Washington, D.C.: Pew Research Center, 2024.
PIZZUL, D.; SALA, E.; CALIANDRO, A.; ZACCARIA, D.; CARLO, S. Evaluating the impact of a peer-education digital literacy course on older adults’ digital skills and wellbeing: a mixed-methods study protocol. Frontiers in Sociology, v. 9, 1432607, 2024.
PUCER, P.; ŽVANUT, B.; VRHOVEC, S. Adoption of smartphones among older adults and the role of perceived threat of cyberattacks. International Journal of Information Security, v. 24, n. 3, p. 1-17, 2025.
TIAN, H.; WANG, Y. Mobile Phone Addiction and Sleep Quality among Older People: The Mediating Roles of Depression and Loneliness. Behavioral Sciences, v. 13, n. 2, p. 153, 2023.
WILSON, S. A.; BYRNE, P.; RODGERS, S. E.; MADEN, M. A Systematic Review of Smartphone and Tablet Use by Older Adults With and Without Cognitive Impairment. Innovation in Aging, v. 6, n. 2, igac002, 2022.
